Moçambique
Não tem sonho romântico que resista à realidade do amor que se faz todo dia, essa verdade que é tão clichê quanto concreta
O amor comeu meu estado e minha cidade (…)
Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
(Drummond)
Hoje faz 19 anos que desembarcamos em Moçambique, Alexandre e eu. Nós tínhamos sido apresentados rapidamente, dois dias antes, numa reunião de alinhamento na empresa que nos contratou. Mas foi em Moçambique que a gente se conheceu, foi em março de 2007 que a gente começou a namorar, e hoje, quase duas décadas depois, ele está lá de novo, em Moçambique, de novo a trabalho, me mandando fotos daquele lugar-cenário e testemunha do começo de nós dois juntos.
Fomos para fazer um trabalho de consultoria ambiental, um estudo de impacto de um equipamento de logística que seria contruído na cidade da Beira, para transportar minério de ferro. Foi meu primeiro trabalho de consultoria e também o dele. Foi nossa primeira vez na África. No fim das contas, o equipamento não foi feito, e parece que só serviu mesmo para nos juntar.
Éramos os dois pesquisadores, e aceitamos o trabalho para diversificar as fontes de renda. Ele ficou, se tornou um excelente consultor ambiental, ajudou e ajuda muita gente impactada por grandes empreendimentos a terem um pouco mais de dignidade, a receberem suas indenizações, a ter o olhar de uma pessoa ética e comprometida em lidar com impactos que costumam ser dificílimos, quando não terríves. Eu voltei para a carreira acadêmica, ainda que tenha feito um bocado de estudos ambientais em paralelo à pesquisa e ensino, e nesse ínterim, construímos família nossa, compartilhamos as nossas famílias de origem, e também amigos, fizemos a festa de casamento mais linda de que se tem notícia. Mudamos de país e fizemos novos amigos, nos encontramos bem longe do nosso lugar, numa cidade linda cortada por dois rios, que nos acolhe e se tornou a casa da nossa filha.
Ele lá e eu aqui, com a nossa filha, nossos gatos, no país que a gente escolheu, no apartamento que a gente vem reformando aos poucos, bem aos poucos. Ele lá e eu aqui, unidos pelo amor que, confesso, eu não imaginei nem nos meus sonhos mais ambiciosos (porque não tem sonho romântico que resista à realidade do amor que se faz todo dia, essa verdade que é tão clichê quanto concreta). Ele lá e eu aqui, e nós dois unidos também por uma dor nova, que a vida nos apresenta, e que a gente atravessa, porque amor também é dor.
Talvez eu tenha pensado esse texto, quarta ou quinta-feira passada, como um açucarado conjunto de palavras de amor e enamoramento e lantejoulas e corações, comemorando, meu amor você está de novo em Moçambique, quando comemoramos dezenove anos do nosso começo. Daí veio a sexta-feira e a gente chorou junto o choro que sucede as notícias duras de ouvir. Daí tudo se confunde, mas se tem algo bom em fazer análise por mais de década, é aprender a discriminar. Então eu vejo muito claramente: chorar junto, e se saber junto, no meio do temporal, é expressão de muito amor. Isso é sim motivo para comemorar: eu sigo te celebrando, amor.
E ainda que eu não tenha perdido o medo da morte, o teu amor é a mão que segura a minha e segue me dizendo, vem comigo, eu estou aqui. Eu também estou, conta comigo, a gente vai continuar aprendendo a viver com as mudanças que se apresentarem para nós, e sempre, sempre, com as melhores lembranças do amor que se transmuta, mas não acaba nunca.
As fotos: na primeira, uma praia na cidade da Beira, pelo olhar do meu amor-fotógrafo, em 2007. A segunda, o olhar do fotógrafo que faz seu auto-retrato no Rio Zambeze, MZ, em 2026.



