Luto e rímel
Achei que logo depois dos rituais de despedida, eu escreveria um longo texto sobre o meu sogro. Diria de todas as suas inúmeras qualidades. Do quanto ele é amado. Da falta imensa que já faz para cada um de nós, os seus, e para seus milhares de alunos, colegas, admiradores. Achei que ia contar coisas lindas que eu tenho na memória, tantas e tantas de suas piadas, seu cuidado carinhoso com a netinha – assim seus colegas da USP se referiam à minha filha, a netinha. Dizer que até meus amigos que só o viram uma vez já sentem saudade.
Mas aí os dias foram passando e a cada vez que eu pensava em escrever, vinha a vontade de chorar. Daí eu chorava. E deixava para escrever depois. E procurava uma foto. Ou um livro. Ou simplesmente olhava uma das gravuras que ele me presenteou – sim, foi com ele que eu descobri que há muitos artistas cuja arte custa um preço possível, foi ele que me deu a primeira gravura que eu tive na vida. Tenho uma bem linda no meu escritório, que vejo toda vez que me sento para trabalhar. E outras lindas espalhadas pela casa.
Algumas vezes eu esqueço que provavelmente vou chorar ao longo do dia, então passo o rímel de manhã, só para ele seguir escorrendo pelo rosto dia afora. Tem sido assim. Dia sim, dia não, dia sim, dia também.
Meu sogro é professor, eu também. Foi bom voltar às aulas essa semana. Eu adoro os alunos. A sala de aula é um lugar no qual eu me sinto bem. Estou cansada, acabada, derrotada: entro na sala, dou minha aula, parece um transe. Saio de lá e a derrota se impõe de novo. Mas por uma, duas horas, estou no meu lugar. Essa semana, enquanto dava minhas aulas, pensava: talvez isso me ligue também ao J.; ouvi de tantos alunos e alunas sobre o mestre que ele foi, sobre as aulas que prendiam os alunos até o fim, até o vigia chegar e dizer que estava na hora de fechar o prédio. Não, não quero me comparar à grandeza dele, e também não vou fazer a modesta, pois sei que sou boa no que faço – afinal, como ele me disse muitas vezes, os modestos são velhacos – mas o que eu quero mesmo é me aproximar ainda mais dele: somos professores.
E os alunos são um barato. Hoje, numa prova oral, a pergunta era: diga em português algo de que você gosta muito. A aluna então dissertou: o que eu mais gosto é de tocar guitarra. E de jogar vídeo game. Lá para as tantas eu perguntei: e quais músicas você gosta? Ela: não gosto de música. Surpresa, segui a conversa: e no entanto, você toca guitarra. Ela: ah, sim. Eu só gosto do instrumento, não gosto de ninguém cantando.
Uma outra me contou que o que ela mais gosta são as praias do seu país – sabe, professora, as praias do meu país ficam no Caribe. Poxa. Não é para menos. E ela dissertou sobra a cor da água, a areia fina, as músicas e o sol de sua terra. Lá pras tantas, eu perguntei se ela conhecia alguma praia na França, e ela me disse que sim, mas não sabia exatamente como expressar em português a avaliação que fazia delas quando comparadas às praias do seu país. Então achei que era um bom momento para ensinar a expressão: “dá pro gasto”.
Eu poderia ficar ali ouvindo sobre as predileções dos meus alunos por horas. Cada jovem, um mundo. Não, não é sempre assim. Claro que é cansativo, claro que a disputa com o celular é ferrenha, e tantas otras cositas más. Ainda assim, na balança dos dias, sempre pende para o melhor. Pois é, Joãozinho, sigo aqui nesse mundo caduco, ensinando e aprendendo, e sempre sempre pensando em você, me inspirando em você, e agradecendo à vida o doce e terno tempo da sua presença.



Ô, minha querida. Sinto muito pela sua perda e pela sua dor. Te mando meu carinho.